Terra da Misericórdia, em Arcoverde (PE), une fé e assistência social

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Mistério. A palavra, comum em orações e ritos católicos para expressar os milagres e vontades divinas, também é usada pelo padre Adilson Carlos Simões para descrever o pedaço de caatinga que, em 12 anos, se transformou num local de peregrinação. Estendendo-se por um terreno de oito hectares na região da Serra das Varas, em Arcoverde, a Terra da Misericórdia abrange o santuário, jardim, trilha, capela, memorial e uma comunidade hoje formada por nove casas. Um espaço de contemplação e reza bem na entrada do Sertão pernambucano, à esquerda do quilômetro 244 da BR-232 no sentido de quem vem do Agreste e do Litoral urbanizado e deseja adentrar o Brasil profundo.

“Vem gente de todos os lugares, de muito longe, apenas para aconselhamento. É pela oração que Deus ouve os ‘ais’ dos seus servos e, em havendo fé, os milagres acontecem. Aqui é um lugar de prodígios”, afirma o fundador da Obra da Divina Misericórdia, que, além de promover e ordenar as celebrações religiosas no local, administra uma organização sem fins lucrativos, o Centro de Educação e Desenvolvimento Comunitário (Cedec), voltada para ações de cunho social. “Temos hortas comunitárias. Trabalhamos juntos e partilhamos a terra. Além disso, construção de casas para pessoas que não estão incluídas em programa do governo. O Minha Casa, Minha Vida é um belo programa, mas contempla quem tem 1,5 salário mínimo. Trabalhamos com os que não têm salário”, conta.

História de fé

No princípio, era apenas uma capela e um galpão velho no meio da caatinga. Foi em maio de 2000 que o padre Adilson, à época pároco de Arcoverde, teve a inspiração de construir na localidade um santuário dedicado à Misericórdia de Deus. “Eu vinha celebrar uma vez por mês na capelinha. No dia 13 de maio, quando termino a sagrada comunhão, eu costumo me recolher por alguns instantes. E eu ouvi alguém que me determinava: ‘Quero que se construa aqui um santuário dedicado à minha misericórdia’. Levei um susto. Levantei os olhos, só vi a igreja e as pessoas. Fui até o altar para concluir a missa e a pessoa repetiu as mesmas palavras. No outro dia de manhã, fui a Pesqueira falar com o bispo”, lembra.

O objetivo da conversa era pedir permissão para erguer o templo, mas a autorização só veio em janeiro de 2007. “Contei-lhe (ao bispo), perguntei se acreditava, ele disse que sim, e eu pedi licença para deixar a paróquia e vir morar aqui. Não deixou. Eu insistia e ele ficou bravo: ‘Eu seria irresponsável como bispo se permitisse. Não tem as mínimas condições’. Nesses sete anos, eu apenas visitava e orava pedindo um sinal. Muitas pessoas me aconselhavam a não vir. Em 2007, o novo bispo permitiu vir e eu cheguei de táxi com uma marmita para começar tudo do zero”, recorda o sacerdote.

Aos poucos, com a ajuda de moradores, ergueu o espaço eucarístico, começando pelo quarto onde mora até hoje e, em frente, o Santuário da Divina Misericórdia, que levou mais sete anos para concluir. Esculpido de rocha talhada, mesmo material utilizado no ambão, o altar mostra imagens de Jesus Misericordioso e Santa Faustina, fundadora da Obra da Divina Misericórdia em Cracóvia, na Polônia. O espaço ecumênico é rodeado de um jardim e uma trilha dividida em 15 estações, locais de parada com placas que recontam a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Ao fim do caminho, que contém três fontes de água benta, fica um espaço com teatro ao ar livre, onde é feita a encenação de Natal.

Tudo isso, segundo o padre, foi erguido com a colaboração de várias pessoas, ricas e pobres. “Os que podem dar mais, dão. Temos grandes empresários que são filhos da Obra e temos garis que contribuem com R$ 2, mas são filhos e amados da mesma forma”, diz. Desde que abriu o espaço, o religioso registra em um caderno milagres e graças que soube terem ocorrido por lá. “Três meses atrás, uma mulher de Gravatá, cega, chegou num grupo de romeiros, foi à fonte, banhou-se e foi curada. Essa fonte eu encontrei abrindo o caminho no mato”, diz.

Com essa atmosfera mística, centenas de romeiros circulam pelo terreno toda semana em busca de evolução espiritual. Entre eles, a dona de casa Cícera Lúcia Rodrigues, de 67 anos, se disse encantada com o que via. Ela mora em Brasília e veio com a filha Paloma, 27, que tem Síndrome de Down e escreveu uma mensagem sobre o espaço. “Para mim, a Terra da Misericórdia é um lugar bom, cheio de paz e silencioso”, leu no papel que tinha escrito. A mãe, que soube do local por uma amiga e chegou em outubro, ainda não tem data para voltar. “Não sei se em janeiro ou fevereiro. Sei que em março eu tenho que estar em Brasília. Aqui a gente encontra paz porque na balbúrdia do dia a dia é complicado”, diz.

Para receber toda essa quantidade de gente, está sendo construído um rincão, um amplo espaço com arquibancada e capacidade para onze mil fiéis. Ao lado, há um memorial que conta a história da Obra e reúne os ex-votos, objetos trazidos por peregrinos para o pagamento de promessas. Para quem mora, a tranquilidade é uma recompensa. “Fui a primeira moradora, cheguei há 12 anos. Não tinha nada. Agora está bem diferente. Está caindo fogo do céu de tanta benção”, ressalta dona Julieta Celina dos Santos, 90, que nasceu em Pernambuco, mas veio de Hortolância, São Paulo, onde viveu com a família por muitos anos. (Folha PE).

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