Número de adultos com Covid-19 em UTI’s cresce 143% na virada do ano

O número de pacientes adultos internados em leitos de Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) para Covid-19 aumentou 143% entre 20 de dezembro e 24 de janeiro, de acordo com dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Para a pesquisadora Margareth Portela, responsável pelo levantamento, a alta reflete em parte o crescimento rápido de casos da nova variante Ômicron no país, mas está longe ainda de se assemelhar ao que ocorreu no começo de 2021, quando explodiu a segunda onda da pandemia. Ela e secretários de Saúde destacam a importância da vacinação para evitar o pior.

O levantamento faz ressalvas aos dados de São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte. Segundo a Fiocruz, não foi possível precisar a quantidade de internações nesses três estados nas duas datas. Assim, considerando apenas os outros 24 estados, foram 2.139 internações em 20 de dezembro, número que passou para 5.200 em 24 de janeiro.

A taxa de ocupação estava em 80% ou mais em seis estados em 24 de janeiro, o que, pela classificação da Fiocruz, indica nível de alerta crítico. Outros 12 estavam na faixa de ocupação entre 60% e 79%, ou seja, alerta “médio”. Outros sete estavam abaixo dos 60%. Em 20 de dezembro, nenhum estado passava dos 80%.

Os dados podem incluir internações por síndromes respiratórias agudas graves (SRAGs) causadas por outras doenças, mas, segundo a Fiocruz, a maioria é em decorrência da Covid-19. Já em Pernambuco —estado em que a taxa de ocupação, de acordo com o levantamento, pulou de 56% para 81% —, a Secretaria de Saúde local informou que o aumento das internações por SRAG foi provocado principalmente pelo vírus H3N2, da gripe.

O Distrito Federal registrou a maior taxa de ocupação de leitos em todo país: 98% na última segunda-feira, de acordo com a Fiocruz. Na terça, segundo o painel mantido pela Secretaria de Saúde local, chegou a 100%. No DF, a taxa de transmissão do vírus está em 2,24, número que aponta que cada 100 infectados podem contaminar outras 224 pessoas. Há ainda no DF 25 leitos de UTI bloqueados. Em nota, a Secretaria de Saúde informou que, entre eles, há leitos que estão passando por desinfecção para receber um novo paciente. Assim, concluída essa etapa, poderão ser desbloqueados. A secretaria informou ainda que monitora em tempo real a situação das vagas e ativa novos leitos “conforme a necessidade de cada momento”.

Também na região central do país, Goiás aparece com 82% na taxa de ocupação de leitos de UTIs. Em nota, a Secretária de Saúde do estado afirmou que as ocupações no período de dezembro e janeiro se mantiveram “no mesmo patamar”, mas com explosão de casos da Ômicron, que não foi mais grave em razão da vacinação. Destacou também que o sistema de notificação passou a “maior parte de dezembro” indisponível e ainda há municípios realizando registros.

O Rio de Janeiro teve um aumento de 529,9% no número de pacientes internados em UTIs. Um dado, porém, chamou a atenção da Fiocruz: a taxa de ocupação em 20 de dezembro, segundo os dados oficiais da Secretaria de Saúde estadual, era muito baixo, de 10%, a menor de todo o país, o que causou estranheza. Assim, mesmo com a taxa de ocupação de 62% em 24 de janeiro, abaixo da maioria dos estados, o aumento de um mês para outro foi expressivo, uma vez que teve um ponto de partida baixo.

Outros três estados com o maior número crescimento no número de pacientes internados, segundo o levantamento da Fiocruz, são o Amazonas (410,6% entre 20 de dezembro e 24 de janeiro), o Acre (350%) e o Ceará (277%).

Para a pesquisadora Margareth Portela, do Observatório Covid-19 da Fiocruz, a variante Ômicron está produzindo internações com características diferentes das anteriores, com menor tempo nas unidades de saúde. As hospitalizações em geral não têm a mesma gravidade de outras variantes, mas pessoas idosas e com comorbidades continuam no gripo de risco. De qualquer forma, ela considera significativo o aumento das internações.

“Por enquanto, eu não vejo um cenário que a gente assistiu há um ano atrás. Mas a gente está tendo de fato um aumento nas taxas de ocupação de leitos de UTIs com estados entrando nos parâmetros críticos”, afirmou a pesquisadora, alertando que não se pode tratar a doença como “uma gripezinha” e que as medidas de prevenção estão sendo deixadas de lado pela população em geral.

De acordo com ela, as internações são menos graves para quem é vacinado: “Quem tem [dose de] reforço é um número mínimo que está sendo internado.”

O secretário de Saúde do Espírito Santo, Nésio Fernandes, destaca que a alta na taxa de internação está descolada do número de óbitos. Ele garante que “não há risco de colapso” porque foram tomadas medidas preventivas, como aumento no número de leitos, compra de insumos e plantão-extra nas unidades de Saúde. O estado atingiu uma taxa de ocupação de leitos de UTI de 80% em 24 de janeiro, frente a 41% em 20 de dezembro.

“Nós acreditamos que esse comportamento de expansão da nova curva deve se estender até a primeira quinzena de fevereiro, ao longo do mês de fevereiro, mas nós não acreditamos que finalize o mês sem estar no início de uma fase de recuperação”, afirmou o secretário.

Para Fernandes, o grande desafio não é aumentar o número de leitos, mas sim convencer 3,5% da população adulta a se vacinar. O grupo representa metade da população da faixa de 25 a 35 anos que ainda não tomou a primeira dose da vacina contra Covid.

“Esse público é o que vai aos eventos, em atividades que neste momento não são adequadas , que tem filhos que agora serão vacinados, entre 5 a 17 anos”, alerta Fernandes, destacando que é um público fundamental para o controle da pandemia.

Em Pernambuco, o assessor técnico da Vigilância em Saúde da Secretaria de Saúde, George Dimech, destacou o avanço de outra doença: a gripe. Segundo ele, houve um aumento muito grande de casos leves de Covid-19, com crescimento maior da ocupação das enfermarias que das UTIs, mostrando um avanço da Ômicron, que costuma ser mais branda. Os casos graves de Covid-19 também cresceram, mas num ritmo menor que o das SRAGs em geral, numa evidência do avanço da gripe.

“Normalmente a gripe nossa acontece em fevereiro. Houve uma mudança. Ela passou quase dois anos sem circular. À medida que a Covid-19 ficou mais tranquila, com o avanço das vacinas, a gripe começou a ocupar o espaço. A gripe voltou no final de novembro”, disse Dimech.

Ele apontou ainda que, no fim deste mês, os índices de ocupação de leitos de UTI já começam a melhorar. A expectativa é que no fim de fevereiro, a situação fique mais tranquila. Quanto à Covid, ele disse que não é possível apontar que esteja sob controle, sendo necessário avançar ainda mais na vacinação, mas destacou que a doença não está mais sob descontrole.

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