Marília Arraes oficializa saída do PSB

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A vereadora do Recife, Marília Arraes anunciou, na tarde deste sábado (27), sua desfiliação do Partido Socialista Brasileiro (PSB). A carta de desfiliação, direcionada ao presidente do partido em Pernambuco, Sileno Guedes, foi protocolada na última sexta-feira (26) no Diretório Estadual. No documento, divulgado na íntegra, Marília faz uma série de críticas ao antigo partido, elencando alguns episódios.

Segundo a ex-socialista, criou-se uma “atmosfera para o controle à mão-de-ferro, tanto do próprio PSB quanto da política de Pernambuco em toda a sua estrutura”. Ela ainda acusou a cúpula do partido de “querer comandar desde simples decisões internas partidárias, que coubessem a escolhas democráticas e colegiadas, até o desenrolar de toda a cena e atores políticos do Estado”. Marília também afirmou que “atitudes bajulatórias, principalmente para com a família Campos e os que gravitam em torno dela, tornaram-se praxe entre os integrantes do PSB”.

No documento, Marília Arraes também afirmou ter sido vítima de ofensas e retaliações desde 2014, ano em que ela rompeu politicamente com a antiga legenda. Segundo ela, tais episódios tornaram “insuportável” a permanência dela no que chamou de “simulacro de Partido Socialista Brasileiro”. A vereadora criticou, ainda, as alianças feitas em 2014, especialmente com o PSDB. A aliança com os tucanos, na avaliação de Marília Arraes, foi “de encontro a tudo o que o PSB pregou, batendo de frente com aliados históricos e beneficiando toda uma corriola de direita que tudo fez para erradicar conquistas obtidas a muito custo”.

De acordo com a mensagem publicada no Facebook, o destino da vereadora e a data de filiação ao novo partido serão divulgados em breve. No entanto, após deixar o PSB, a legisladora deverá se filiar ao PT. Na última terça-feira (23), o ex-prefeito do Recife, João Paulo, divulgou em seu Twitter que a cerimônia de filiação ocorrerá na próxima quinta-feira (03), às 18h30, na Câmara dos Vereadores do Recife.

Confira abaixo a íntegra da carta de desfiliação de Marília Arraes:

Ilmo. Sr.
SILENO GUEDES
Presidente Estadual do PSB

Prezado Senhor,

Como é do conhecimento de todos, possuo uma identidade histórica com o PSB e sempre defendi de forma aguerrida e corajosa os objetivos e os princípios do partido. Identifico-me integralmente com a luta socialista e faço dela o meu objetivo diário na política e na vida pessoal. Acredito na liberdade, na democracia, na participação popular, na socialização dos meios de produção estratégicos e fundamentais ao desenvolvimento do país, na criação de novas formas e sistemas de produção e na perspectiva de um desenvolvimento sustentável. Não admito qualquer forma de preconceito, de opressão, de marginalização de pessoas e luto para combater os antagonismos de classe e a exploração.

Firme nessa convicção, sempre contribui com o PSB no diálogo com a sociedade e nas disputas eleitorais. Desde muito cedo, acompanhei Dr. Miguel Arraes em sua atividade política, participando e aprendendo com o seu modo sério, democrático e socialista de se posicionar. Em 2008 e em 2012, fui eleita vereadora do Recife, em campanhas vitoriosas que contribuíram para o crescimento do partido e para a sua consolidação nos cenários municipal, estadual e nacional.

Em meio a este contexto de crescimento meteórico, foi-se criando uma espécie de atmosfera, por parte de um núcleo duro da legenda, para o controle à mão-de-ferro, tanto do próprio PSB quanto da política de Pernambuco em toda a sua estrutura, em busca da ocupação completa de todas as instâncias de poder existentes, nas esferas estadual e municipal: Executivo e Legislativos Municipais, Judiciário e Tribunais de Contas, utilizando-se dessas últimas instituições, inclusive, como “polícia política”.

A cúpula dos que mandam no partido passou a querer comandar desde simples decisões internas partidárias, que coubessem a escolhas democráticas e colegiadas, até o desenrolar de toda a cena e atores políticos do Estado. Desta maneira, os militantes, foram alijados de qualquer participação na construção democrática, já que a nós cabia não só homologar todas as decisões que vinham “de cima”, mas também aplaudi-las de pé. Atitudes bajulatórias, principalmente para com a família Campos e os que gravitam em torno dela, tornaram-se praxe entre os integrantes do PSB.

Posso exemplificar e provar o que digo. Durante o ano de 2014, houve a tentativa descabida de se impor uma verdadeira intervenção na juventude do partido. Quando todos esperavam que houvesse uma disputa e diálogo saudáveis dentro do segmento – que, diga-se de passagem, é à base da formação de quadros partidários – de repente, somos surpreendidos com a notícia de que a JSB/PE seria comandada por João Campos, filho de Eduardo Campos, que dias antes, em visita à sede do PSB, havia singelamente conversado com os jovens das chapas postulantes ao congresso estadual do partido, dizendo que queria conhecer sobre o funcionamento da Juventude Socialista. Sem nenhuma militância, construção deste caminho, nem justificativa política. Aliás, para muitos, era algo plenamente justificável: “A ordem veio de cima”.

Partindo para a política macro, acompanhamos com muito pesar a formação das alianças celebradas pelo PSB para eleições de 2014. Como uma verdadeira reedição da retrógrada e extinta “União por Pernambuco”, numa atitude cheia de pragmatismo, contradição e com zero preocupação ideológica, o PSB-PE aliou-se a DEM, PSDB, PMDB e PPS, adversários históricos, não somente do ponto de vista eleitoral, mas principalmente em relação aos ideais e às lutas encampadas pelo PSB. Partidos reacionários, muitos que sempre representaram a violência, a ditadura e a opressão em nosso país. Tudo isso reflete uma mudança substancial do programa e dos objetivos basilares do PSB, partido nascido na luta pela democracia e pela liberdade.

Não posso esquecer-me de citar o episódio revoltante do inimaginável – até então – apoio dado ao PSDB de Aécio Neves no segundo turno das eleições presidenciais, indo de encontro a tudo o que o PSB pregou, batendo de frente com aliados históricos e beneficiando toda uma corriola de direita que tudo fez para erradicar conquistas obtidas a muito custo. Mesmo antes da morte do ex-governador Eduardo Campos e da escolha da ex-ministra Marina Silva como candidata (e seu discurso disfarçadamente liberal), ficou mais evidente ainda a guinada à direita que o antigo Partido Socialista Brasileiro deu, contrariando seus princípios, seu estatuto e, principalmente, sua história.

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