Bebela e a simplicidade da luz

Por Carlos Laerte

Quem, entre nós, já viu o Nego D’água?

Bebela viu, e olha que ainda na infância, quando tinha apenas 9 anos. De lá pra cá, nunca tirou das retinas, 95 anos fatigadas, essa imagem
que ressignificou, transformando em visão de vida e fecunda linguagem. Professora, historiadora e folclorista, mestra da cultura popular desse meio líquido e santificado que chamamos Rio São Francisco, Maria Izabel Muniz Figueiredo, conhecia cada nuance, cada claro e escuro, sons, quereres e sabores da Juazeiro amada, da terra que ela adorava mostrar sempre por um ângulo novo. E o que via essa voz de afinação única e vigorosa? Bebela tinha os pés na contemporaneidade, os olhos na estação velha de Piranga e cuidados afetuosos com o Marco Zero. Afinal, como ela mesmo ensinou: “Se a gente não cuidar, vai acabar”.

Atriz de múltiplas faces e musicista de variado instrumental, criou grupos de teatro e corais de música. Foi radialista com foco marcante na preservação das tradições culturais da cidade. Pesquisadora da força, fé e intensidade dos costumes beradeiros, ela levou a sério e fez com que muita gente também respeitasse os Ternos de Reis, os Congos, a Festa do Divino e os Penitentes. Com igual tenacidade e firmeza de propósitos, Bebela sempre foi escolhida, e a primeira a se apresentar, quando nós da imprensa precisávamos fazer uma reportagem sobre o rico acervo de lendas que povoa nosso imaginário popular. Relicário pontuado pelos encantos e mistérios da Nossa Senhora da Rapadura, Vapor Fantasma, Minhocão, Mãe d’água, Serpente da Ilha do Fogo, Nego D’água e as carrancas que gemiam três vezes, anunciando aos barqueiros os perigos do rio. Nunca vou esquecer o dia que Bebela me ligou para ir buscar um presente: o magnífico livro de Paulo Pardal ‘As Carrancas do São Francisco’. A primeira coisa que me veio à cabeça foi o ensinamento primordial que ela repetia sempre com entusiasmo juvenil e vigor filosófico: “Não existe cultura sem memória, nem consciência de cidadão e nação sem o conhecimento histórico'”.

Fonte murmurante e generosa desse ‘empório do sertão do São Francisco e corte do sertão’, Bebela também emprestou a pena para escrever páginas significativas em livros a exemplo de ‘Lendas de Juazeiro e Cidades Ribeirinhas do Vale do São Francisco’ (2011), e ‘Juazeiro de Todas as Artes’ (2016), este em parceria com o pastor Edmundo Isidoro dos Santos. Em maio de 1999, tive a grata alegria de publicar com ela o livro ‘ Memória San franciscana – 80 anos da Marinha no Vale do São Francisco e outras histórias ‘. Uma edição patrocinada pela TV Norte, hoje TV São Francisco. Ainda por indicação de Bebela, produzimos, com assinatura editorial da Clas Comunicação e Marketing, para a educadora juazeirense, Maria José Lima da Rocha, as revistas da ‘Arquiconfraria do Coração Eucarístico de Jesus’ (2016), ‘A Novena Perpétua em Juazeiro – Milagres Existem!’ (2017) e do ‘Coral Santa Cecília’, em 2019.

Neste 9 de setembro, a mãe de Fred e Fridda e mentora dos netos Layre, João Vitor, Denis Filho e Denis Flávio se despediu, como as estrelas costumam fazer, na simplicidade da luz e no sigilo das coisas divinas. Olhando para a imensidão do universo e agradecida pela pausa de tantos compassos, Bebela pegou na mão de Nossa Senhora das Grotas e entoou a canção dos justos e limpos de coração, caminho ao Nosso Senhor Deus Pai.

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