Ao poeta Manuca Almeida

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“Poxa, Lú, eu sinto tanto”.

Só foi o que consegui falar quando Lú Almeida me ligou nesta manhã de domingo. Somos amigos há quase 30 anos, trabalhamos juntos e a amizade criou laços sólidos.

“Olha, não fique assim, ele não sofreu, partiu dormindo”, disse ela, fazendo o papel de consolar que deveria ser meu.

Enxuguei o choro, engoli um seco e tentamos então estabelecer um diálogo. Lú e Manuca eram quase um. A vida toda foi assim.

“Já fez um texto pra Manuca, daqueles bonitos que você faz?”

“Não Lú, ainda não tive forças”.

A verdade é que passei estes dois dias lendo uma porção de gente homenageando o poeta. Li coisas lindas sobre sua obra, seu trabalho e sua genialidade. Pude perceber como foi amado e o tamanho da falta que vai fazer. Não saberia escrever melhor do que toda essa gente, pois não escreveram, deixaram o coração falar.

Tive o privilégio de conhecer e conviver com o homem e o artista. Se era uma pessoa que respirava arte, era também um homem de família como poucos.

“Carlinhos, Lú te disse que Dandara tá namorando, ficando com uma pessoa?”

“Disse não, Manuca. Mas é normal, né não?”

“É sim, pra filha dos outros. Pra da gente não, meu irmão. Tem que ser tudo como manda o figurino. Igual a Narciso”.

Ele dizia isso para lembrar do slogan da loja. Era um pai zeloso e por vezes “careta” no cuidado com as meninas. Um marido cuidadoso e preocupado com a esposa.

Não foram poucas as vezes que Manuca partiu de ônibus para Salvador apenas com a passagem de ida.

“Verdade, poeta. Não tem nem o dinheiro de volta?”

“Não Carlinhos, você não entendeu. Eu não tenho nem o dinheiro da passagem do coletivo local pra sair da rodoviária, quanto mais pra voltar“.

E lá ia ele. Pelas coxias dos teatros, dos grupos culturais, nos colégios e onde tivesse movimento para mostrar a sua arte. Nem sempre foi o letrista conhecido, com acesso às gravadoras ou aos artistas de primeira grandeza que conviveu depois.

“Manuca não sofreu, Carlos Britto“, me disse Lú.

“Ele sentia dor nas costas, como qualquer pessoa que fica muito tempo deitado sente. Pelo desconforto. No final, já entre a fantasia e a realidade, disse a Iana que achava que a dor nas costas era por que estava deitado em cima de um violão e não tinha percebido”.

Depois que tiraram o violão imaginário a dor passou e ele pôde então não sentir mais nada. Guimarães Rosa disse que as pessoas não morrem, ficam encantadas.

Sonhos não dormem, poeta, e você deixou seu cheiro na varanda. Nunca mais vou ler o Vale Recados com a frase que todos os namorados, tão enamorados, roubaram de você: Se alguém te amar como eu, não é alguém sou eu. Mas nunca roubaram mesmo porque você ofereceu e, você me ensinou, que o que você oferece será sempre seu.

“Carlinhos, você vai perceber que quanto mais conhecido você for, quanto mais gente conhecer, quanto mais longe você for, mais você vai ser dos seus, lá de trás. E aí vem mais coisas boas. Veja minhas filhas e agora meus netos. A gente caminha pra voltar pro começo”.

O poeta agora fechou os olhos, virou um passarinho encantado no mundo maravilhoso que ele imaginou. Agora ele voou bem alto. E eu prendi a respiração!

Homenagem de Carlos Britto

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